O Livro do Gêneses

 


 Gênesis é palavra de origem grega, singular, feminina, que significa causa, princípio, produção, geração, criação, nascimento, origem e ação de tornar-se, em oposição a ser. Conjunto dos seres criados - a Criação. Gênesis é o nome do primeiro livro do Pentateuco, o conjunto dos livros que iniciam as Escrituras Sagradas. 

Moisés teria organizado o Pentateuco, em sua essência, por volta do séc. XIV a.C. mas, seu texto foi, gradualmente, completado, por redatores, posteriores a ele, que o suplementaram.

 O livro de Gênesis é também citado no Novo Testamento, Atos 15, e sua temática aparece em outros documentos antigos, como o Documento de Mari, um dos mais antigos documentos existentes sobre as migrações semitas, em direção à Sumer, na Mesopotâmia. 

Mari, atualmente, é denominada tell Hariri. No documento citado há referências a Abraão e Jacó. No entanto as condições apresentadas, leva-nos a deduzir que a presença dos semitas, na região, era ainda pouco desenvolvida, no séc. XXVIII a. C., porque as inscrições, em língua suméria, assim como a estatuária, demonstram que a influência dos semitas, na Mesopotâmia é bem mais recente (para a questão consultar: P. Jouguet e J.Vandier in Les Premières Civilizations, Col. Peuples et Civilizations, Paris, 1950, p.115).

 Ao tempo do rei Saul, sagrado em 1080 a.C., como o primeiro rei de Israel, atualizou-se a redação do Pentateuco. O Pentateuco estabelece relações entre a história, à lei e a doutrina. 

Através da história é explicada a origem do povo de Deus; e através da lei, Israel seria a nação, através da qual, Deus redimiria o homem. O Gênesis descreve a origem desta nação, ao mesmo tempo em que a lei será estabelecida, posteriormente, através do texto do Decálogo, no livro do Êxodo, capítulo 20.

 O texto em Gênesis pode ser dividido em duas partes:

    •  Dos capítulos 1-11, em que são descritas: as origens do mundo e da espécie humana, a queda do homem e o primeiro homicídio. 
    •  Dos capítulos 12-50, em que é descrita a sucessão das gerações de Adão a Noé, e as de seus filhos, Sem, Cam, Jafté. Sem, seria seu filho mais velho, cujos descendentes, povoaram a Ásia: Elam, Assur, Arfaxad, Lud e Aram, fundadores de povos importantes, no povoamento da Ásia, como os elamitas, os assírios e os arameus. Abraão foi descendente de Arfaxad.

No Gênesis é relatado o maior espaço de tempo histórico da Bíblia. Seus onze primeiros capítulos são uma introdução maravilhosa às Escrituras, pois n’Ela descrevem-se, não somente a Criação do mundo, da natureza e dos os seres vivos, animais e vegetais, como a do homem, também parte desta Natureza, mas a quem fora atribuída uma parcela da Divindade, através de sua alma imortal. 

 Além de tudo isto ainda é apresentadas aí, as principais doutrinas teológicas:

1. Dos capítulos 1-11, descreve-se: a origem do mundo, da espécie humana, a queda do homem, e o primeiro homicídio. 

 2. Dos capítulos 12-50, descrevem-se: a sucessão das gerações de Adão a Noé - de Sem, aos descendentes de Abraão, Isaac e Jacó - até a morte de José, portanto a história daqueles que aceitaram o Deus Único, àqueles, através dos quais, Deus mostrou-se ao homem. 

 As Escrituras foram redigidas para todos os homens, em todos os tempos. Desta forma tornou-se necessária uma linguagem que não se restringisse apenas a esta ou aquela cultura ou idioma, mas que fosse acessível a todas as línguas e culturas, em todo tempo. 

O “discurso bíblico” é (tanto no Velho Testamento, como no Novo Testamento) desenvolvido através de uma linguagem simbólica, em que, o sentido do que se quer dizer, ultrapassa o da expressão literal das palavras empregadas. 

Por isso é que, às vezes, algumas passagens parecem ao leitor, um tanto difíceis, mesmo um tanto obscuras. Importante é que se compreendam os significados variados, de conceitos gerais, tais como: morte, vida, corpo, e outros, que são especialmente encontrados no livro de Gênesis. 

É interessante ainda notar-se que o tempo, desde a criação é contado por unidades de sete dias, as semanas, correspondentes às fases do calendário lunar, tipo de cronologia, geralmente ligado aos povos pastoris. Quanto ao “Espaço Primordial” terrestre, não se restringe somente ao espaço Palestino. 

O Éden, criado por Deus para o homem, achava-se em parte, em região que na Antiguidade chamava-se Mesopotâmia, que significa “Região entre rios” no caso, a região hoje chamada Iraque, situada entre os rios Pison, Gion, Êufrates e Tigris, Gn2: 11-14.

 Inicialmente as condições em que vivia o homem, ligavam-no à Natureza, materialmente. Mas, no entanto, fora o "sopro divino" que o tornara “alma vivente, à imagem e semelhança” de Deus, Gn1: 26, 5: 1, 9: 6, 11: 7 e Tg3: 9. 

Uma vez que os seres humanos foram criados à semelhança de Deus, como não o fora criatura alguma, homens e mulheres podem, não só refletirem como reproduzirem - dentro de sua própria condição de criaturas humanas - os santos caminhos de Deus. 

Fomos criados dentro deste propósito e, num determinado sentido, seremos verdadeiros “seres humanos”, na medida em que o cumprirmos. Por imagem e semelhança, compreende-se: A existência do homem como uma “alma” ou um “espírito”, isto é, como um ser pessoal, autoconsciente, com capacidade para pensar, conhecer e agir Gn2: 7.

  1.  Ser criatura moralmente correta - qualidade perdida na queda - mas progressivamente restaurada por Cristo. 
  2.  Ter o domínio sobre o meio ambiente. 
  3.  O corpo humano é o instrumento, através do qual, o homem experimenta a realidade, se expressa e exerce o domínio. 
  4.  Ter a capacidade, dada por Deus, de usufruir a vida eterna Ef4: 24 e Cl3: 1-17.

A condição humana original foi transformada por incapacidade do homem em controlar a tentação da vaidade, e desobedecer a Deus, o que provocou sua “morte”. 

A “morte de Adão” não foi física, mas significa que o homem perdera sua comunhão com Deus, não por ter ingerido o fruto que lhe fôra proibido, em si, mas pela desobediência explícita a Deus, Gn2: 17-23. 

Conclui-se que, neste contexto, “morte” corresponde ao afastamento de Deus, e à perda da imortalidade, que só seria restabelecida, através da vinda de Cristo. Consequências:

  1.  A consciência do erro, que se manifestou pela vergonha de sua nudez. 
  2.  A expulsão do Paraíso, o espaço em que fôra criado por Deus, para abrigá-lo. 
  3.  A mulher passou a ser dominado pelo homem, Gn3: 1-17, e a parir com dor. Há aí, quanto à mulher, uma relação entre sexo, gestação, dor e dominação pelo homem. 
  4.  Quanto ao homem à imposição de garantir o sustento a si e aos seus à custa de esforço físico, por seu trabalho.

Quanto à expulsão, teve por objetivo afastá-los da árvore da vida e impedi-lo que conseguissem a vida eterna, Gn3: 23-24. Conclui-se, que neste contexto, mais uma vez, que “morte” corresponde a afastamento de Deus e perda da imortalidade, o que só seria restabelecida, através da vinda de Cristo.

“Vagabundo e fugitivo” - Esta foi a sentença proferida por Deus contra Adão, o que significa que, sem abrigo ou proteção, foram levados ao nomadismo Gn4: 14. 

O livro do Gênesis é o livro inicial não só da Bíblia como também de toda a história da existência. Gênesis quer dizer começo, origem. Inicia-se com o primeiro ato da criação. O título é por demais adequados ao conteúdo do livro, pois tem a ver com a origem divina de todas as coisas, seja matéria ou energia, vivo ou inanimado. 

Implica em que à parte de Deus tudo pode ser rastreado até o ponto inicial quando os propósitos e obra de Deus vieram a existir. O Gênesis indica que Deus trouxe à existência “os céus e a terra”. O sumário da conclusão do Gênesis (46: 8-27) se encontra no Êx1: 1-7, e serve como ponte entre os patriarcas e a libertação do êxodo, ressaltando a continuidade da história do Pentateuco.  

 O Tema do livro de Gênesis (a criação) é duplo, porém numa mesma direção:

  1.  A criação do universo e da raça humana; 
  2.  A criação de um povo sacerdotal para a raça humana.

É como se fossem dois trilhos de uma linha de trem, que começam na criação e terminam na libertação (salvação). 

Entretanto, falar-se de começo apenas não é totalmente satisfatório porque não responde a uma pergunta histórica e teológica fundamental: por quê? Saber o que Deus fez; (que criou todas as coisas no começo) é importante, mas saber por que Deus atuou na criação e para a redenção é compreender a verdadeira essência da revelação divina. 

O tema do Gênesis centra-se em torno da primeira expressão comunicadora de Deus ao homem, quando disse: “Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra”. 

Deus deixa claro que Ele criou o homem e a mulher para abençoá-los para que pudessem exercer o domínio, por parte de Deus, sobre toda a criação. Foi à desobediência humana que ameaçou o propósito de Deus para a humanidade na criação. 

A isto Deus responde chamando Abraão, através do qual a bênção de Deus iria finalmente triunfar. Esta visão deriva não apenas do Gênesis em si, mas de uma visão total da teologia bíblica; algo de fundamental importância para uma verdadeira e saudável compreensão da revelação de Deus. 

O livro é estruturado sobre forma de três grandes seções:  

  1.  Primeira dedicada aos eventos originais (Gn1-11) escrita na forma de narrativa poética para facilitar a transmissão oral; 
  2.  Segunda que se constitui no relato dos três primeiros patriarcas (Gn12-36; 38) são relatórios acerca destes ancestrais retidos num registro familiar; 
  3.  Terceira que é a narrativa de José (Gn37; 39-50) sendo uma breve história contendo tensões e resoluções.

É de fundamental importância entender que o livro do Gênesis apresenta uma história, na forma de narrativa que abraça uma variedade de tipos literários, para comunicar clara e eficazmente sua mensagem teológica, que essencialmente está declarada em Gn12: 2. 

O propósito básico do livro era o de dar à nação de Israel uma explanação de sua existência, quando estavam no limiar da conquista de Canaã. Moisés, autor profético inspirado por Deus, tinha a tarefa de esclarecer o seu povo do como e por que Deus os trouxe a existência. 

Ele também queria que eles soubessem que sua missão era a de nação sacerdotal, fruto de um concerto, e como sua situação presente era o cumprimento de antigas promessas. Cuidadosa atenção dada aos temas que ligam o Gênesis aos demais livros do Pentateuco, esclarecem estes propósitos. 

Deus revelou a Abraão que lhe seria garantida uma terra (2: 1,5,7; 13: 15); que seus descendentes deixariam aquela terra por um tempo (15: 13); que eles seriam libertados da terra de seus opressores e retornariam à terra da promessa (15: 16). 

Esta terra seria deles por todo o sempre (17: 8) como sendo um centro a partir da qual eles seriam uma bênção a todas as nações da terra (12: 2-3; 27: 29). José entendeu isto e viu na sua própria viagem ao Egito a preservação divina do seu povo (45: 7-8). 

Deus o havia enviado para lá para salvar o povo da extinção espiritual e física (50: 20). Viria o tempo no qual Deus iria lembrar Sua promessa a Abraão, Isaque e Jacó, e os traria de retorno a Canaã (50: 24). Aqui o povo serviria a Deus como agente retentivo, um catalisador em torno do qual as nações seriam reconciliadas com Deus (Dt4: 5-8; 28; 10). 

Entretanto, a mensagem teológica do Gênesis vai além da estreita limitação de apenas Israel. O livro, além de fornecer a razão de ser de Israel, explica a condição humana que exigia um povo da aliança. Isto é, desvenda os grandes propósitos criacionais e redentivos de Deus que se focalizam em Israel como agente da recriação (conceito da nova criatura) e salvação. 

Lembremos que o propósito eterno e original de Deus, delineados em Gn1: 26-28, foi ao criar o homem à Sua imagem e semelhança, abençoá-los de tal forma que pudessem exercer o domínio sobre toda a criação por parte de Deus, o domínio humano sobre a criação de Deus com a sanção divina. 

A queda da raça humana subverteu o objetivo de bênção e domínio de Deus. O processo de redenção e recuperação da aliança original se fazia necessário. Isto tomou forma na escolha de Abraão, através de cujo filho (Israel e em última análise o Messias) os propósitos criacionais divinos viessem a se realizar. 

Aquele homem e nação, unidos pela eterna aliança a Jeová, foram encarregados com a tarefa de servi-lo como modelo de um povo de domínio e o veículo através do qual um relacionamento salvífico pudesse ser estabelecido entre Deus e o mundo alienado das nações. 

A história mostra que Israel falhou em ser o povo servo, um fracasso antecipado na Torah (Lv26: 14-39; Dt28: 15-68). 

A grande lição teológica vivencial, no entanto, é que os propósitos de Deus não podem ser para sempre frustrados. O povo de Deus do AT serviu como modelo do Reino do Senhor e agência através da qual Sua obra reconciliadora na terra poderia ser alcançada através do Seu povo do NT. 

A igreja existe agora como Seu corpo para servir como Israel foi escolhida e redimida para servir. A teologia do Gênesis está envolta nos propósitos do Reino de Deus que, a despeito dos fracassos humanos, não pode ser impedido no Seu objetivo último de demonstrar Sua glória através de Sua criação e domínio.

Caso o amado (a) leitora queira ter uma compreensão mais ampla é necessário que faça a leitura dos versículos e também dos Cinco Livros do Pentateuco. Caso tenha o interesse em conhecer as Escrituras mais a fundo, nos do ITA oferecemos nossos Cursos teológicos. 

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